Loteria da Babilônia

Sunday, May 15, 2005

a filosofia de um não

tudo bem. eu aceito a tua partida. aceito perder todas aquelas tardes tão nossas. os azuis, os verdes, o castanho-medo dos teus olhos. aceito te entregar à escolha de um destino cruel. de crueldade minha. porque só eu a enxergo assim. aceito largar a tua mão para não mais precisar dela na hora do afago. da bronca. da calma e do espírito. aceito me embreagar nesta mentira de que te esquecerei brevemente. aceito chorar escondido ao ver a tua fingida ignorância. aceito essa carapuça estúpida de fragilidade que você vestiu. sem me perguntar nada. aceito que você chute a nossa história como se chutaria uma lata suja. só para ouvir o estrondo, o movimento, o poder de poder chutar essa porra. aceito desgraça cotidiana de esquecer a tua voz. dia após dia. noite após noite. aceito a espera cansada de que tudo se evacue sem que eu tenha que limpar a merda. rezo falácias imundas que nada me dizem de importante. aceito ser ridícula ao ponto de pedir arrego. penico. férias. aceito que nossas bocas não mais se beijarão. aceito o partir dos teus seios duros, de luxúria escorregadia...aceito que "nós" agora quer dizer "eu" e "você". aceito a sobrecarga imunda de nunca ter te alertado para certos males. errados mares... aceito a incapacidade instantânea de te injuriar para te largar. aceito o comodismo ingrato de expurgar aquele amor como esterco sagrado. aceito me desresponsabilizar por tuas paixões. aceito ignorar-te. igonrar as tuas existências em mim. aceito pulverizar nossas primaveras mágicas. nossos atos de entrega. aceito, enfim, não ouvir meu coração. que bate. sofregamente. a gritar o teu nome nos sonhos mais loucos. eu vou. e aceito, para sempre, caminhar contigo. sozinha.