A lutadora
à palombra sanches, guerreira na retórica etílica...
lutar com palavras...é a luta mais vã. enquanto lutamos mal rompe a manhã. são muitas, eu pouca. algumas tão fortes como um javali. não me julgo louca, se a fosse teria poder de encantá-las. mas lúcida e fria apareço e tento apanhar algumas para o meu sustento num dia de vida. deixam-se enlaçar tontas à carícia. e súbito fogem e não há ameaça e nem há sevícia que as traga de novo ao centro da praça.
insisto, solerte. busco persuadí-las. ser-lhes-ei escrava de rara humildade. guardarei sigilo de nosso comércio. na voz, nenhum travo de zanga ou desgosto. sem me ouvir deslizam, perpassam levíssimas e viram-me o rosto. lutar com palavras parece sem fruto. não tem carne e sangue...entretanto, luto.
palavra, palarva (digo exasperada). se me desafias, aceito o combate. quisera possuir-te neste descampado, sem roteiro de unha ou marca de dente nesta pele clara. preferes o amor de uma posse impura. e que venha o gozo da maior tortura!
luto corpo a corpo, luto todo o tempo, sem maior proveito que o da caça ao vento. não encontro vestes, não seguro formas, é fluido inimigo que me dobra os músculos e ri-se das normas da boa peleja.
iludo-me as vezes. pressinto que a entrega se consumará. já vejo palavras em coro submisso, esta me ofertando seu velho calor, outra sua glória feita de mistério, outra seu desdém, outra seu ciúme. e um sapiente amor me ensina a fruir de cada palavra. a essência captada, o sutil queixume. mas...ai! é o instante de entreabrir os olhos: entre beijo e boca, tudo se evapora.
o ciclo do dia ora se conclui. e o inútil duelo jamais se resolve. o teu rosto belo, ó palavra, esplende na curva da noite que toda me envolve. tamanha paixão e nenhum pecúlio. serradas as portas, a luta prossegue nas ruas do sono...
drummondianamente prosando...
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